Angina e Sinais de Alerta: Quando o Coração Pede Socorro
A angina (angina pectoris) é uma dor ou desconforto no peito que ocorre quando o músculo cardíaco (miocárdio) não recebe sangue e oxigênio suficientes. É o principal sintoma da doença arterial coronariana e serve como um sinal de alerta crucial de que as artérias do coração estão comprometidas pela aterosclerose.
Reconhecer os sintomas da angina e diferenciá-la de outras causas de dor torácica pode salvar vidas, permitindo tratamento oportuno e prevenção de um infarto agudo do miocárdio.
O Que É Angina
Angina não é uma doença em si, mas um sintoma de isquemia miocárdica - isto é, falta de oxigênio no músculo cardíaco. Quando as artérias coronárias estão estreitadas por placas de ateroma, elas conseguem fornecer sangue suficiente em repouso, mas não conseguem aumentar o fluxo adequadamente quando o coração precisa trabalhar mais (exercício, estresse, digestão).
Fisiopatologia
Durante situações que aumentam a demanda cardíaca (exercício, emoção forte, exposição ao frio), o coração precisa de mais oxigênio. Se as artérias coronárias estão obstruídas em 70% ou mais, o fluxo sanguíneo não consegue aumentar o suficiente, causando isquemia. As células cardíacas sofrendo privação de oxigênio enviam sinais de dor.
Características da Dor Anginosa Típica
A angina clássica tem características bastante específicas:
Localização
- Centro do peito (retroesternal): A localização mais comum
- Pode irradiar para: Braço esquerdo (mais comum), mandíbula, pescoço, ombros, costas, braço direito
- Raramente: Epigástrio (pode ser confundida com problema digestivo)
Qualidade da Dor
Os pacientes descrevem de várias formas:
- "Aperto" ou "pressão" no peito
- "Peso" ou "opressão"
- "Queimação" (menos comum)
- "Falta de ar" associada
- Sensação de "indigestão" ou desconforto mal definido
Duração
- Angina estável: 2-10 minutos, raramente mais de 20 minutos
- Dor > 20 minutos: Suspeitar de síndrome coronariana aguda (infarto)
- Dor por segundos ou contínua por horas: Provavelmente não é angina
Fatores Desencadeantes
- Esforço físico (caminhar, subir escadas, carregar peso)
- Estresse emocional intenso
- Refeições pesadas
- Exposição ao frio
- Relação sexual
Fatores que Aliviam
- Repouso (geralmente alivia em 2-5 minutos)
- Nitratos sublinguais (isossorbida, dinitrato) - alívio rápido (1-3 minutos)
🚨 ATENÇÃO - Quando Procurar Emergência Imediatamente
Procure atendimento de emergência IMEDIATAMENTE se: Dor no peito que dura mais de 10-20 minutos | Dor que não melhora com repouso | Dor acompanhada de falta de ar intensa, sudorese fria, náuseas, vômitos ou sensação de morte iminente | Primeira vez que sente essa dor | Dor diferente do seu padrão habitual de angina. Estes podem ser sinais de infarto!
Tipos de Angina
Angina Estável (Angina de Esforço)
É a forma mais comum e previsível:
- Desencadeada por esforço ou estresse
- Padrão consistente e reconhecível pelo paciente
- Duração breve (2-10 minutos)
- Alivia com repouso ou nitratos
- Representa obstrução coronariana significativa mas estável
- Risco de infarto existe, mas menor que nas formas instáveis
Angina Instável (Síndrome Coronariana Aguda)
Forma mais perigosa, requer atenção médica imediata:
- Dor em repouso ou com mínimo esforço
- Mudança do padrão habitual (mais frequente, mais intensa, mais duradoura)
- Nova angina de início recente (< 2 meses) já severa
- Não alivia completamente com repouso
- Representa placa instável ou trombo parcial
- Alto risco de progressão para infarto completo (20-30% em 3 meses sem tratamento)
Angina Variante (Prinzmetal)
Forma rara causada por espasmo coronariano:
- Ocorre em repouso, frequentemente à noite ou madrugada
- Causada por espasmo (contração) da artéria coronária, não apenas obstrução
- Pode ocorrer mesmo sem aterosclerose significativa
- Eletrocardiograma mostra elevação do segmento ST durante a dor
- Responde bem a bloqueadores de canal de cálcio
Angina Microvascular
Angina causada por disfunção dos pequenos vasos:
- Sintomas de angina, mas coronárias grandes normais em angiografia
- Mais comum em mulheres
- Causada por disfunção endotelial dos pequenos vasos (microvasculatura)
- Diagnóstico desafiador, frequentemente subdiagnosticada
📺 Vídeo Educativo: Angina e Infarto
Dr. Alexandre Amato explica os sintomas de angina e quando procurar atendimento de emergência.
Equivalentes Anginosos
Nem todos os pacientes com isquemia cardíaca apresentam dor torácica típica. Algumas pessoas, especialmente idosos, diabéticos e mulheres, podem ter "equivalentes anginosos":
- Dispneia (falta de ar) aos esforços: Sem dor no peito
- Fadiga desproporcional: Cansaço extremo com atividades leves
- Náuseas e vômitos: Especialmente durante esforço
- Sudorese profusa: Sem causa aparente
- Palpitações ou arritmias: Durante esforço
- Desconforto epigástrico: Confundido com gastrite
- Fraqueza súbita: Sensação de desmaio iminente
Angina em Mulheres
As mulheres frequentemente apresentam sintomas atípicos de isquemia cardíaca:
- Menos propensas a ter dor torácica clássica
- Mais comum: fadiga, falta de ar, desconforto epigástrico, náuseas
- Sintomas podem ser mais sutis e inespecíficos
- Maior incidência de angina microvascular
- Frequentemente subdiagnosticadas e subtratadas
- Importante alta suspeita clínica em mulheres com fatores de risco
Diagnóstico de Angina
O diagnóstico de angina combina história clínica detalhada com exames complementares:
Avaliação Clínica
- História detalhada dos sintomas (OPQRST: Onset, Provocative/Palliative, Quality, Radiation, Severity, Time)
- Avaliação de fatores de risco cardiovascular
- Exame físico incluindo ausculta cardíaca e pulmonar, pressão arterial
Eletrocardiograma (ECG)
- ECG em repouso: Pode ser normal mesmo em doença significativa
- ECG durante a dor: Pode mostrar alterações isquêmicas (depressão ST, inversão de onda T)
- Mudanças dinâmicas: Alterações que aparecem e desaparecem são sugestivas
Exames Laboratoriais
- Troponinas cardíacas: Marcadores de lesão miocárdica. Normais na angina estável, elevados em síndrome coronariana aguda
- Perfil lipídico, glicemia, função renal: Avaliar fatores de risco
- Hemograma: Anemia pode precipitar angina
Teste Ergométrico (Teste de Esforço)
- Provoca isquemia controlada através de exercício progressivo
- Monitora ECG, pressão arterial e sintomas
- Sensibilidade 60-70%, especificidade 70-80%
- Limitado em mulheres, portadores de alterações basais no ECG
Cintilografia Miocárdica de Perfusão
- Imagens nucleares do fluxo sanguíneo miocárdico em repouso e estresse
- Detecta áreas com perfusão reduzida (isquemia)
- Maior acurácia que teste ergométrico simples
Ecocardiograma de Estresse
- Ultrassom do coração em repouso e após estresse (exercício ou dobutamina)
- Detecta alterações na contração das paredes cardíacas indicativas de isquemia
Angiotomografia Coronariana
- Visualiza as artérias coronárias não invasivamente
- Excelente para excluir doença significativa (alto valor preditivo negativo)
- Identifica placas calcificadas e não calcificadas
Cateterismo Cardíaco (Angiografia Coronariana)
- Padrão-ouro para visualizar obstruções coronarianas
- Invasivo, mas permite tratamento imediato (angioplastia + stent se indicado)
- Reservado para casos selecionados ou quando outros testes são inconclusivos
Tratamento da Angina
Objetivos do Tratamento
- Aliviar sintomas e melhorar qualidade de vida
- Prevenir infarto do miocárdio
- Reduzir mortalidade
Medidas Gerais e Mudanças no Estilo de Vida
- Cessação imediata do tabagismo
- Controle rigoroso da pressão arterial (< 130/80 mmHg)
- Controle do diabetes (HbA1c < 7%)
- Redução agressiva do LDL (< 70 mg/dL)
- Programa de reabilitação cardíaca supervisionada
- Controle de peso e dieta cardiovascular
- Gerenciamento de estresse
Medicações
Para alívio imediato dos sintomas:
- Nitratos de ação rápida: Dinitrato de isossorbida sublingual. Alívio em 1-3 minutos. Sempre ter à mão.
Para prevenir sintomas (uso contínuo):
- Betabloqueadores: Reduzem frequência cardíaca e demanda de oxigênio (metoprolol, carvedilol)
- Bloqueadores de canal de cálcio: Dilatam coronárias e reduzem pressão (anlodipino, diltiazem)
- Nitratos de longa ação: Mononitrato de isossorbida, adesivos de nitroglicerina
- Ivabradina: Reduz frequência cardíaca sem afetar pressão
- Ranolazina: Melhora metabolismo cardíaco, sem alterar frequência ou pressão
Para prevenir eventos (proteção cardiovascular):
- AAS (Aspirina): 100mg/dia, antiagregante plaquetário
- Clopidogrel: Especialmente após stent ou se intolerância ao AAS
- Estatinas: Reduzem LDL, estabilizam placas, reduzem inflamação (alta dose)
- Inibidores da ECA ou BRA: Especialmente se hipertensão, diabetes ou disfunção ventricular
Revascularização
Indicada quando medicação não controla sintomas ou em anatomia coronariana de alto risco:
- Angioplastia com stent: Cateter abre a obstrução e implanta tubo metálico (stent) para manter artéria aberta
- Cirurgia de revascularização (ponte de safena): Cria "desvios" usando veias ou artérias para contornar obstruções. Indicada em doença multiarterial complexa, diabetes, disfunção ventricular
Avaliação e Tratamento da Angina
Sintomas de angina ou dor no peito requerem avaliação médica especializada. A equipe do Amato Instituto oferece investigação completa e tratamento da doença coronariana.
Agendar Consulta no Vascular.proPrognóstico
O prognóstico da angina depende de vários fatores:
- Tipo de angina: Estável tem melhor prognóstico que instável
- Extensão da doença coronariana: Comprometimento de 1, 2 ou 3 vasos
- Função ventricular: Fração de ejeção preservada ou reduzida
- Adesão ao tratamento: Medicação regular e mudanças no estilo de vida
- Controle de fatores de risco: LDL, pressão, diabetes, tabagismo
Com tratamento adequado, a maioria dos pacientes com angina estável tem boa qualidade de vida e prognóstico razoável. No entanto, angina instável requer tratamento agressivo imediato devido ao alto risco de infarto.
Perguntas Frequentes sobre Angina
Toda dor no peito é angina?
Não. Existem muitas causas de dor torácica: problemas musculoesqueléticos, esofágicos, pulmonares, ansiedade, entre outros. A angina tem características específicas (relação com esforço, duração, qualidade, alívio com repouso). No entanto, dor torácica sempre merece avaliação médica.
Angina sempre evolui para infarto?
Não. Angina estável, com tratamento adequado, tem risco relativamente baixo de evoluir para infarto (2-3% ao ano). Angina instável tem risco muito maior (20-30% sem tratamento) e requer intervenção urgente.
Posso fazer exercícios se tenho angina?
Sim, mas com orientação médica. Exercício supervisionado (reabilitação cardíaca) é parte fundamental do tratamento. O médico deve avaliar sua capacidade funcional e prescrever exercícios seguros. Evite esforços intensos sem liberação médica.
Nitrato sublingual faz mal ao coração?
Não. Nitratos dilatam as artérias e ajudam o coração. Efeito colateral principal é dor de cabeça e queda de pressão. Se precisar usar mais de 2-3 vezes por semana, informe seu médico pois pode indicar piora da doença.
Ansiedade pode causar dor no peito parecida com angina?
Sim. Ansiedade e pânico podem causar dor torácica. No entanto, geralmente é diferente: mais prolongada, associada a hiperventilação, sem relação consistente com esforço. Nunca assuma que é "só ansiedade" sem avaliação médica adequada.
Tenho que tomar remédio para sempre?
Geralmente sim. Angina indica doença coronariana estabelecida. Medicações previnem sintomas e, mais importante, reduzem risco de infarto e morte. Suspender medicação aumenta significativamente o risco. Discuta sempre com seu médico antes de alterar tratamento.